-paolice.

O que se vive, se escreve

#24

Primeiro, a experiência.

Depois, o silêncio, a clareza.

Então, a palavra.

Minhas roupas eram claras.

Eram brancas e novas para ser bem específica. 

(Arranquei a etiqueta pela madrugada para a ocasião).

A ocasião: caminhada pela trilha.

Uma trilha de 1 km.

Uma trilha de lama.

Havia chovido por dias, tudo ali estava viscoso e úmido.

Adentrava a trilha pulando nas partes mais firmes da terra. 

Evitava o barro. 

Evitava a sujeira. 

Evitava o contato. 

Por 1 km fiquei pulando em ziguezague em meio à Mata Atlântica. 

Feito boba. 

Sim, feito boba. 

Fiquei nesse movimento abobado até chegar ao destino. 

O destino?

Um par de quedas maravilhosas, ensurdecedoras, molhadas. 

A cachoeira. 

A cachoeira no meio do mato.

A cachoeira com “A” maiúsculo.

A EX-TRA-OR-DI-NÁ-RIA. 

(Sou apaixonada por esse lugar).

O deck no alto para contemplar ela não foi suficiente para mim.

Queria, queria…

Descer a ribanceira.

Descer no poço.

Descer…

Descer no barro mole???

Meu ziguezague na trilha funcionou até ali pra não me sujar.

Mas agora…

Agora desço de bunda a ribanceira rumo ao barro mole para não escorregar. 

Desço com a ajuda do ilustre cavaleiro que à minha frente, sustenta minha descida. 

(Meu marido, na época namorido). 

O ilustre sustenta a minha descida com mãos de barro na parte de trás da minha coxa.

(Aposto que com segundas intenções). 

Uma leve escorregadinha minha aqui, outra ali.

Agarro firme nos matos altos para não descer a ribanceira como no escorregador. 

(Por pouco não escorregamos juntos ao além).

Cheguei ao poço.

Toda suja. 

Descalça.

Pés cheios de lama. 

Com aquela leve camada preta e fina embaixo das unhas de todos os dedos.

Encardidas.

Horrorosas. Horrorosas. Horrorosas.

Estar ali. 

No poço. 

Inteira molhada com os respingos da queda da água. 

Molhada com a chuva da cachoeira.

Foi um momento…

Foi um momento…

Foi um momento intenso da minha breve jornada.

Inclusive, um dos mais importantes. 

(Declarado!)

Vivi esse dia com verdadeira presença.

Vivi com alegria.

A caminhada foi melequenta e escorregadia.

Mas dali não queria mais sair.

Meus olhos viam.

Queria viver ali nas duas quedas.

Meus olhos viam.

Queria me aconchegar na parede de pedra.

Meus olhos viam.

Queria acompanhar o percurso do riacho. 

Meus olhos viam.

Queria contornar as pedras com o fluxo da água.

Talvez…

Sentir pra sempre a FORÇA.

A ENERGIA a FREQUÊNCIA do local.

Mas…

Não era eu a força?

Não era eu a energia e frequência?

Não éramos um só? 

Éramos. 

Éramos. 

Éramos.

Um só.

Um só momento.

De leveza? Indescritível.

Voltei de lá renovada.

Sem ziguezague pela trilha.

Voltei de lá nadando e surfando no barro. 

Voltei com as roupas cor marrom.

Alegre. 

Alegre

Alegre. 

Não voltei a mesma. 

Não sou mais a mesma depois desse dia.

Renovei.

Transmutei.

Mudei.

O dia.

O dia que aprendi a amar a natureza, ou…

O dia que lembrei amar a natureza. 

Acho que só lembrei.

Isso, só lembrei.

Só lembrei amar a natureza.

O dia de transformação interna e externa com desafios…

Que desafios!

Que dia!

Tenho consciência de que ele não volta mais. 

Mesmo que eu volte lá na cachoeira. 

A EX-TRA-OR-DI-NÁ-RIA. 

Não vai mais ser a mesma coisa. 

Não vai mais ter o ziguezague tímido pelo barro. 

Não vai mais ter a descida controlada de bunda pela ribanceira.

Não vai ter mais as mesmas pessoas que estiveram comigo lá.

Não.

Não vai.

Não será como foi.

Não será.

Não.

Mas posso guardar esse dia.

Guardar esse momento vivo na minha memória. 

Com gratidão.

Eterna gratidão.

Silencie.

Se essa experiência encontrou a sua, me escreva.

— transformação.

♡♡♡

P.S. Qual contato seu com a natureza mudou você para sempre?

P.P.S. Uma pessoa que estava lá comigo, não está mais aqui nesse plano. A ela só gratidão por viver comigo nesse momento.

P.P.P.S. Se esse texto ressoa com você, inscreva-se e receba uma nova carta todas as quartas às 06:06.