-paolice.
O que se vive, se escreve
#12
Primeiro, a experiência.
Depois, o silêncio, a clareza.
Então, a palavra.
Meu corpo reage ao luto pela ausência de alguém assim:
Aperto no peito.
Sensação de vazio.
Gatilho de fuga.
Choro preso.
. . .
Do lado da minha casa morava uma senhorinha de cabelinhos brancos fofinhos…
A Dona…
(Algum nome que começa com R? Ou L? – me perdoa por esquecer seu nome).
Ela sempre estava fora de casa.
Observava as coisas por ali.
Mexia no quintal.
Quando me via sempre conversava comigo.
Um dia ela não estava mais ali.
Não tinha ninguém para me observar, conversar comigo.
Alguém me contou que ela faleceu.
Nesse dia, relacionei o falecimento com as palavras: AUSÊNCIA. VAZIO.
Foi a primeira vez que senti a ausência de alguém, estava com 4 ou 5 anos.

Pouco tempo depois…
Um menino de uma família muito conhecida, que sempre via pela rua.
(Morava em cidade do interior).
Faleceu após sofrer acidente na pista de skate.
Traumatismo craniano.
Fui com a escola (acho que foi, não tenho certeza disso) na despedida.
A cabeça enrolada com uma faixa branca.
Deitado.
Dedos cruzados.
Sem reação.
Sem movimentação.
Sem energia.
Foi a primeira vez que vi um corpo sem vida.
Roxo. Branco. Azulado.
Algumas imagens ainda estão registradas.
A ponto de lembrar de comer sanduíche de presunto e queijo na despedida.
A ponto de lembrar do meu pensamento em relação ao sanduíche:
“Isso veio da panificadora dos meus pais.”
O sentimento? Confusão. Seguido por compreensão.
Aos meus 9 anos…
A minha amada tia.
A tia que representava para mim segurança, conforto, proteção.
Ela se ausentou.
Num dia muito impróprio para a ocasião… No dia da mentira.
A ausência dela foi traumática.
É. É. É. Ainda é.
Mesmo hoje, 21 anos após a ausência dela…
Ainda carrego a energia desse dia.
Ainda sinto falta.
Me lembro dela.
Me lembro do sorriso.
Me lembro da gargalhada.
Da alegria de estar com ela.
Da força que ela me transmitia.
Meu carinho por ela sempre está aqui.
Sempre vai estar.
Sempre.

Depois…
Senti a ausência de 1, 2, 3 bisas.
(Maravilhosa a experiência de conhecer elas, velhinhas, lindas, lindas, únicas).
Um conhecido ali, outro aqui se ausentou.
Um parente de um parente também.
Mas ninguém mais de pertinho.
Ninguém mais de pertinho até…
Esse ano.
O dia? 06 de março.
Fazia tempo que não sentia essa sensação.
Aperto no peito.
Sensação de vazio.
Gatilho de fuga.
Choro preso.
De…
Isso é pegadinha do malandro.
Sim! É pegadinha!
Logo ela vai me mandar mensagem.
Logo ela vai dizer que precisava de um tempo do mundo.
Mas que agora voltou mais forte. Mais saudável. Mais ativa.
Era o que eu gostaria, mas ela se ausentou.
Ela se ausentou inesperadamente. Ela se ausentou.
Para mim ela era a imagem de mãe, avó, amiga.
Que me conhecia mais do que ninguém nesse mundo.
Os meus podres. As minhas dificuldades.
As minhas energias. Os meus poderes.
Me conhecia apenas há 6 anos.
Me conhecia de uma vida inteira ou mais.
Sem ela…
Nada disso aqui estaria acontecendo.
A Paolice.
A Paola da Paolice.
A Paola Priscila.

Com ela…
Véus foram rompidos.
Portas foram abertas.
Caminhos foram liberados.
Nossa história juntas de dias alegres. Outros de dias obscuros.
Nem tudo foi lindo. Nem tudo foi perfeito.
Não existem muitas palavras para descrever o que juntas vivemos.
Não, não existem.
Não.
Não.
Não.
Mas eis aqui minha homenagem, minha despedida…
Salve. Salve. Salve. Mãe Rainha!!! Mãe Rosane!!! Benção mãe amada!!!
A tudo! Tudo! Tudo!
Aos ausentes da minha vida…
Vocês são lembrados, amados, honrados.
Silencie.
Se essa experiência encontrou a sua, me escreva.
— ausência.
♡♡♡

